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Gira Discos

Um blog sobre discos, daqueles que tocam, em vinil.

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"Stray Cats" Stray Cats, 1981

Stray Cats é o nome do primeiro LP da banda norte-americana Stray Cats. Tirando a falta de originalidade no nome (que acho ter sido uma boa opção de marketing), originalidade não faltava a este grupo de três elementos, a saber: Brian Setzer, Lee Rocker, e Slim Jim Phantom.

 

Sim, os nomes não deixam muito lugar a dúvidas, estamos no mundo do Rock n' Roll, numa época em que o Punk ainda dava que falar e o pós-Punk florescia com a New Wave a tomar conta de todas as frequências.

 

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Mas, o Rock n' Roll nunca morreu e numa altura em que as sub-culturas musicais tinham um peso relevante na sociedade (pelo menos naquela parte da sociedade que se ralava), a tribo Rockabilly estava bem activa e sabia como poucas adaptar-se às mudanças sociais de então.

 

Stray Cats e o espírito Rockabilly

 

Se a génese do espírito Rockabilly estava nos clássicos norte-americanos do Rock n' Roll, com a fusão de estilos de onde este por sua vez originava (country, rhythm and blues, bluegrass e swing), os Stray Cats, dignos portadores desse legado (com assumida inspiração em artistas como Eddie Cochran, Gene Vincent ou Bill Haley) levaram o ritmo (e o estilo) um pouco mais além.

 

Acelerando as notas, fortalecendo a batida e puxando pela voz, os Stray Cats fizeram um Rock n' Roll moderno, passando além do espírito revivalista associado à cultura Rockabilly. Com o renascer da sub-cultura Teddy Boy na Inglaterra (conversa que fica para outro dia), os Stray Cats perceberam que tinham deste lado do Atlântico um potencial de crescimento inigualável na América de então. Deram o salto e confirmaram-no.

 

O álbum Stray Cats é lançado em Inglaterra em 1981 e com grande sucesso, alcançando o nº 6 na tabela UK Album Charts, levando três das suas músicas à UK Top 40 Hits ("Runaway Boys" a 9º, "Rock This Town" a 9º e "Stray Cat Strut" a 11º). Só um ano mais tarde estaria à venda nos Estados Unidos da América e já depois do lançamento do primeiro álbum "americano" da banda, Buit for Speed.

 

Mas as três músicas de maior sucesso em Inglaterra não são os únicos motivos que levam este Stray Cats ao lugar de álbum histórico. A música "Rock This Town" não só alcançou o 9º lugar na tabela Billboard Hot 100 como foi considerada pelo Rock and Roll Hall of Fame, uma das 500 músicas que moldou o Rock.

 

O álbum contou ainda com outra música que o levou às noticias: "Storm The Embassy", um música declaradamente política, sobre a crise diplomática entre os EUA e o Irão, quando em 1979 cinquenta e dois norte-americanos foram feitos reféns durante 444 dias na embaixada em Teerão.

 

Saindo do tom divertido e bem disposto das outras músicas, "Storm The Embassy" destacava-se do restante álbum não só pela música mas também pelo posicionamento político, claro e assertivo. Não interessa aqui se quem ouvia concordava ou não. Era a posição da banda (eventualmente mais radicalizada para mostrar ao mundo que a sua música podia ser sobre algo mais que copos, carros e saias rodadas).

 

Para mim, as músicas que mais me marcaram em Stray Cats foram sem dúvida "Stray Cats Strut" e "Runaway Boys", músicas que cantei, assobiei, trauteei, durante toda a minha juventude e que até hoje não esqueço.

 

 

Get kicked out for coming home at dawn,
Mom and Dad cursed the day you were born,
Throw your clothes into a duffle bag
shoutin' as ya slam the door home is a drag


Who can I turn to and where can I stay?
I heard a place is open all night and all day
There's a place you can go where the cops don't know
You can act real wild they don't treat you like a child

 

Outros tempos, outras vidas...

 

 

Este disco de vinil é uma edição original de 1981.

 

 

Adolescentes e os discos de vinil

Adolescentes. Estarão eles a ajudar a manter o culto do vinil? 

 

O gosto pela música, que lhe foi transmitido pelo pai, levou Adia a começar a sua própria colecção de discos aos 10 anos de idade. Também do pai ganhou um gosto bastante ecléctico, o que lhe permitiu expandir a sua colecção de discos por muitos e muito variados géneros e estilos musicais.

 

Através da sua relação com os discos de vinil, Adia desenvolveu toda uma vivência em torno da experiência de ouvir música, indo muito para além do "carregar num botão e tocar uma playlist". A música em discos de vinil carrega com ela uma série de rituais e tempos próprios que, para Adia, e para muitas outras pessoas, são de manter no nosso dia-a-dia, pelas mais variadas razões.

 

Em determinada altura, Adia entendeu que, considerando a vasta quantidade de discos de vinil que existia em sua casa, podia contribuir para a felicidade de todos que tal como ela, apreciam essa experiência. Dessa vontade, nasceu a RPM Records.

 

O site Seeker produziu este pequeno vídeo onde nos apresenta Adia Douglas, uma jovem de 16 anos (agora já 17) que gere com grande sucesso a loja de discos RPM Records em Brentwood, na Califórnia.

 

"Captain Fantastic and the Brown Dirt Cowboy" Elton John, 1975

Captain Fantastic and the Brown Dirt Cowboy foi, no ano do seu lançamento, em 1975, considerado pela revista Rolling Stone, um dos melhores álbuns de Elton John. Este foi o seu nono álbum.

 

Hoje, em 2017, apesar de não conhecer a fundo todos os seus mais de 30 álbuns, de entre os muitos que conheço, continuo a concordar com a Rolling Stone.

 

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Captain Fantastic and the Brown Dirt Cowboy é um disco conceptual, contando uma história, de forma a que cada uma das suas músicas, podendo viver por si só, terá mais sentido quando integrada no conjunto e este valerá sempre mais que a soma das partes.

 

No caso em questão, a história é de alguma forma uma autobiografia de Elton John e Bernie Taupin, o "Brown Dirt Cowboy", histórico colaborador de Elton John responsável pela grande maioria das letras das suas composições.

 

Nitidamente produzido para ser uma história simples, de fácil acesso a todos quantos ouçam o disco, Captain Fantastic and the Brown Dirt Cowboy não deixa de ser uma história fantástica onde a força de vontade em alcançar o sucesso e o trabalho feito para tal dão frutos tornando-se por isso uma história inspiradora.

 

Captain Fantastic and the Brown Dirt Cowboy, as histórias da história.

 

Como qualquer boa história, Captain Fantastic and the Brown Dirt Cowboy mostra vários ângulos da mesma e se em músicas como "We All Fall in Love Sometimes" nos é apresentada a fantástica relação de Elton John com Bernie, a sua "alma gémea" como ele próprio viria a dizer, em "Someone Saved My Life Tonight" ficamos a conhecer a forma como as amizades do artista o salvaram no período em que Elton John se tentou suicidar, quando se encontrava numa relação (estava noivo da sua namorada da altura, preste a casar) cujo conflito parecia não lhe deixar outra alternativa.

 

"Someone Saved My Life Tonight" foi o único single a sair de Captain Fantastic and the Brown Dirt Cowboy e até isto nos dá uma indicação do sentido que Elton John queria dar a este disco. Não era uma peça comercial, era um disco que tinha que sair como saiu, uma história a ser contada.

 

"Someone Saved My Life Tonight" tem quase sete minutos de duração, nitidamente uma música não adequada à radio e, por essa razão, a editora propôs a Elton John que a cortasse mas ele recusou afirmando que a música deveria ser lançada como um todo, só assim tendo sentido. Estava certo e "Someone Saved My Life Tonight" foi um sucesso comercial.

 

O álbum foi também ele um sucesso entrando na tabela Billboard Top 200 Albums directamente para o número um, feito nunca alcançado por nenhum outro artista. Ficando seis semanas consecutivas nessa posição, Captain Fantastic and the Brown Dirt Cowboy acabou por ficar na tabela por nove meses.

 

 

Este disco de vinil é uma edição original de 1975.

"The Other Side of the Mirror" Stevie Nicks, 1989

Os Fleetwood Mac eram um sucesso já firmado desde a década de 60 do século passado e a partir de 1975 e muito desse sucesso era devido a Stevie Nicks que nesse ano se tornara vocalista da banda.

 

Mas Stevie Nicks tinha todo o potencial para uma carreira a solo e em 1981 lança o seu primeiro álbum, Bella Donna alcançando imediato sucesso nas tabelas de vendas. Dois anos mais tarde, em 1983, The Wild Heart, o seu segundo álbum a solo, alcança de imediato a dupla platina chegando ao 5º lugar na Billboard 200.Uma vez mais, dois anos depois, lança Rock a Little e, uma vez mais, é um sucesso comercial.

 

A carreira a solo de Stevie Nicks estava em ascensão e em 1989 lança o seu quarto álbum, The Other Side of the Mirror. Com ele a cantora parece mostrar-nos um lado de si a que não tínhamos tido acesso até então, um lado introspetivo, de uma surrealidade consciente.

 

The Other Side Of The Mirror Stevie Nicks no Gira Discos

 

The Other Side of the Mirror, Alice quem?

 

The Other Side of the Mirror é um disco que deve ser interpretado, diz em determinada altura a própria Stevie Nicks, à luz da vida de cada pessoa que o ouve, e não como sendo a história de uma Stevie “Alice” Nicks, que um dia cai num buraco. E talvez seja essa a razão pela qual gosto tanto deste disco.

 

Tal como em Rayuela de Julio Cortazar, o livro que “é muitos livros”, onde cada um de nós pode criar uma leitura específica, também com The Other Side of the Mirror isso funciona e cada um de nós pode ouvir uma história específica, a sua história, assim como a história do outro. Haja vontade.


Na minha opinião é bastante claro que Stevie Nicks é aqui Alice, uma Alice que na queda perdeu camadas de cuidado, mais afastada das estrelas mas consciente de que elas existem e procurando por elas em busca de alguma orientação. Fico a pensar nisso em "Ghosts" quando a cantora se refere à ideia de pensarmos que alguém nos segue, sabendo que estamos errados, que a impressão por cima do ombro é o fantasma de quem gostaríamos de ser e o fantasma do passado em que vivemos…


De igual modo, a Alice em The Other Side of the Mirror parece ter plena consciência do mundo virado ao contrário em que vive e das necessidades que tem. Em "Whole Lotta Trouble", numa das várias conversas com anjos que o disco nos dá a conhecer ouvimos:


And the angel said, "Well you must have had a dream"
And you remember it till the dream followed through
Till the end of the dream and the dream came true
When I want something, I get it


The Other Side of the Mirror leva-nos pela viagem de Alice, que pode ser a viagem de tantos quantos, entre altos e baixos, vivem na completa aceitação de que o seu mundo existe enquanto parte do mundo dos outros e que, ainda que por vezes sendo esses mundos antagónicos, essa é uma relação simbiótica.

 

 

Tudo isto é confuso? Tudo isto é estranho, quase de loucos? Sim, é o que nos espera do outro lado do espelho.

 

Este disco de vinil é uma edição original de 1989.

"20 Golden Greats" Buddy Holly & The Crickets, 1978

20 Golden Greats. Só assim não diz muito. Golden? Quando terá sido essa época dourada de que tantos falam?

 

Todos os estilos musicais têm a sua. Poderemos discutir sobre qual das épocas douradas é a mais brilhante. Para quem produziu 20 Golden Greats, a resposta é clara: a época do Rock n’ Roll.

 

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Com sucessos meteóricos a conquistarem todas as tabelas musicais dos Estados Unidos, Buddy Holly parecia destinado a uma longa carreira de sucesso. Mas as coisas nem sempre são o que parecem e a 3 de Fevereiro de 1959, após um concerto da Winter Dance Party Tour em Clear Lake, no estado do Iowa, Buddy Holly morreu, com 22 anos, num desastre de avião, juntamente com Ritchie Valens e J. P. Richardson, dois outros nomes marcantes do Rock n’ Roll e da “cena” Rockabilly. Esse dia ficou desde então conhecido como o dia em que a música morreu.

 

Buddy Holly, é uma figura incontornável do Rock n’ Roll desde o início da década de 50 do século passado, e mesmo com a sua muito curta carreira, influenciou nomes gigantes da música como John Lennon, Paul McCartney, Bob Dylan, Mick Jagger, Elton John, Bruce Springsteen e muitos outros.

 

O Rock n' Roll Hall of Fame declara até que o Rock n' Roll tal como o conhecemos, não existiria sem Buddy Holly.

 

20 Golden Greats, Buddy Holly para sempre

 

Editado quase 20 anos depois, em 1978, 20 Golden Greats é uma compilação dos maiores sucessos do artista e da banda que então o acompanhava, The Crickets. Nele encontramos músicas que todos conhecemos de outros tempos e que, ainda hoje, continuam a tocar nas rádios do mundo inteiro como That'll Be the DayPeggy Sue, Not Fade Away ou Oh Boy!

 

 

O disco foi um sucesso comercial e em 2012, a revista Rolling Stone classificou-o na posição 92 da sua lista dos 500 maiores álbuns de sempre.

 

Cá por casa, é igualmente um sucesso e se eu tivesse uma lista, 20 Golden Greats de Buddy Holly & The Crickets estaria certamente presente.

 

Este disco de vinil é uma edição original de 1978.

"If It Don't Kill You..." Bruce Willis, 1989

If It Don't Kill You, It Just Makes You Stronger é o nome completo do 2º disco de Bruce Wilis. Sim, Bruce Willis, esse mesmo. O herói de Modelo e Detective (Moonlighting)Assalto ao Arranha-céus (Die Hard) e todos os outros assaltos que vieram depois…


Bruce Willis, como outros actores já o fizeram, também se dedicou à música em determinada altura da sua carreira. Em 1987 lançou o disco The Return of Bruno, numa abordagem ao Rhythm & Blues (R&B), com a participação de alguns nomes sonantes da área como as The Pointer Sisters ou os The Temptations. Não tendo as melhores críticas, focando-se estas mais no Bruce Willis actor do que no "Bruno" que cantava R&B, nem por isso desistiu (e ainda bem digo eu).

 

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If It Don't Kill You, It Just Makes You Stronger, já dizia o Nietszche.


Em 1989, uma vez mais na famosa editora Motown (The Return of Bruno também vem de lá), Bruce Willis lança If It Don't Kill You, It Just Makes You Stronger. E uma vez mais, a crítica não lhe é a muito favorável mas, verdade seja dita, mesmo na altura, ninguém escreveu que Bruce Willis não sabia cantar ou que não tinha uma boa voz. E se escrevessem, estariam a ser injustos.


Junte-se a isso algumas historias bem contadas, com a dose certa de humor e temos meio caminho andado para um álbum.

You got a good thing, you don't even know it
All work, no play makes Jack a little blue
But if it don't kill you, it just makes you stronger
Let's take sometimes we'll concentrate on you

Canta Bruce Willis em Pep Talk para pouco depois nos dizer em Turn it Up (a little louder):

You said you don't like my style
They way I'm living is way too wild
It's only a party you're welcome to come
What's the use of living if you can't have fun

E com isto parece deixar-nos claro que If It Don't Kill You, It Just Makes You Stronger é, antes de mais, um disco que ele queria gravar, com as músicas que queria cantar, no estilo que bem entendia ou seja, era um projecto pessoal que tinha que ser realizado. E foi.

 

 

If It Don't Kill You, It Just Makes You Stronger é um bom disco de R&B, a fazer olhinhos ao Rock n’ Roll, com uma abordagem nos estilos tocando diferentes épocas, do mais clássico ao mais comercial da altura e hoje, quase 30 anos depois, o R&B de Bruce Willis continua a ter a mesma sonoridade, divertida e enérgica que tinha quando foi lançado.


Este disco de vinil é uma edição original de 1989 e veio da Arca Intemporal.

"Darkness on the Edge of Town" Bruce Springsteen, 1978

Darkness on the Edge of Town é o disco de Bruce Springsteen que se segue a Born to Run e isso, só por si, representa já um desafio dos grandes. Três anos antes, em 1975, Born to Run começava a moldar e mostrar ao mundo os personagens que ainda hoje pululam pelas canções de Bruce Springsteen, sonhadores em busca do American Dream que por uma razão ou outra pareciam nunca o encontrar. Mas não havia problema nisso, a Liberdade estava ali, mesmo à mão. Agora era altura de avançar. O sonho sim, é bom, mas a realidade pede para estar presente à mesa.

 

Darkness on the Edge of Town no Gira Discos

 

Darkness on the Edge of Town passa ao lado, ou melhor dizendo, por cima do encantamento e chega como um abrir de olhos. A vida afinal é um pouco mais dura, um pouco mais escura, do que a cantam os trovadores.


O disco surge para Bruce Springsteen como que numa reacção ao seu próprio sucesso. Se o Born o Run o procurava, se ele o alcançou, é agora altura de lembrar que nem só nas estrelas se vive. Este novo disco vem assim, de alguma forma, prestar homenagem ao americano comum, que levando a sua vida dia-a-dia, procura a serenidade e fica feliz com isso.

 

Darkness on the Edge of Town ou a chegada do realismo a Bruce Springsteen

 

A música que abre o lado A do disco, Badlands, deixa claro o quão simples pode ser a felicidade quando Springsteen canta “For the ones who had a notion, A notion deep inside, That it ain't no sin to be glad you're alive”. Porque não? Estar vivo é uma boa razão para sorrir.


Mais à frente temos Something in the night com um som que nos envolve, daqueles que em tempos nos levaria a acender o isqueiro no ar, isto ao mesmo tempo que ouvimos “Nasces com nada e estás melhor assim, pois assim que tens alguma coisa eles mandam alguém para te o tentar tirar, levar para longe”. That’s life diriam alguns hoje.


Ao ouvirmos Candy’s Room, nós, que vivemos na década de 70 e 80 do século passado, lembramos facilmente filmes que vimos, letras que ouvimos, pessoas que conhecemos, gente que se se perdeu mesmo quando a seu lado tinha quem lhe quisesse mostrar a direcção por onde ir. E pensamos “quem se terá perdido realmente?”.


Prove it all night é uma daquelas músicas “à Bruce”, com um sax a abrir na hora certa, mas nem por isso deixa de dizer o que é preciso. Queremos mais, merecemos mais e era bom que os sonhos se tornassem realidade mas a vida é o que é e se queres, bem, se queres pagas.


A canção que dá nome ao disco, Darkness on the Edge of Town, termina a peça, como que num encerramento daqueles em que se espera o pano a cair, sem encore. Canta Bruce Springsteen que algumas pessoas nascem com uma boa vida e que outras se vão safando. Há outras ainda que perdem muito do que têm. Ainda assim, em algum momento, todas elas podem ser encontradas, lá ao fundo, na escuridão nos limites da cidade…


Sim, eu sei, são as minhas interpretações, baseadas nas minhas vivências e na relação destas com os momentos em que ouvi as músicas mas, isso não faz delas, pelo menos para mim, menos reais.


Darkness on the Edge of Town, presente na lista da Rolling Stone dos 500 melhores albuns de sempre, não tendo sido o maior dos sucessos comerciais de Bruce Springsteen, é na minha opinião um dos seus melhores discos.

 

Não é o mais fácil de ouvir mas vale a pena uma escuta atenta pois é um definitivamente um marco, preparando-nos a todos para o que esperar daquele a quem por alguma razão chamam “The Boss”.

 

 

Este disco de vinil é uma edição original, de 1978, e veio da Feira da Ladra.

"Forever Changes" Love, 1967

Forever Changes é um disco nascido do Verão do Amor ou mais precisamente, do Summer of Love, o Verão de 1967, quando milhares de pessoas rumaram para os lados de São Francisco, nos Estados Unidos da América, em busca da comunhão do ideal Hippie. Mas, contrariamente ao que se possa pensar, Forever Changes não é um disco de Paz e Amor.

 

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Em 1967 os Love (banda de rock psicadélico norte-americana de, até então, moderado sucesso) estavam a desmoronar-se… O abuso de substâncias estupefacientes e as recorrentes discussões entre os membros da banda faziam prever um fim próximo. Mas o fim que estava para chegar e que os Love anunciavam era outro: o fim da era dourada do Flower Power.


Quem prestasse atenção à contracapa do disco, iria reparar que na fotografia da banda o vocalista, Arthur Lee, segura uma jarra com uma flor. Mas a jarra está partida. A flor não vai sobreviver.

 

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Em Forever Changes não encontramos a bonança depois da tempestade. Para quem o escutar com um sentido em mente, mais facilmente encontra a tempestade propriamente dita.


O maior sucesso do disco é a música de abertura, Alone Again Or, presente na lista das 500 maiores canções de sempre da Rolling Stone, e logo essa marca o tom, com uma sonoridade próxima do Flamengo (a mãe de um dos guitarristas da banda era dançarina de Flamengo), que enérgica e poderosa, contrasta com a história, de alguma forma triste, do apaixonado que tantas vezes espera pelo seu amor, enquanto este resolve fazer o que quer que seja que lhe apetece, deixando-o sozinho, mais uma vez. É assim o amor. Extrapolem a ideia.

 

I will love you forever. Forever changes

 

Os Love pareciam querer dizer a toda a gente que a ilusão tinha que acabar, que não é por acreditar, sentado, que o mundo muda, que o Homem se torna bom. Como diz a música, as notícias de hoje serão um filme amanhã. Nada mais.


As guerras iriam continuar, nas ruas morria cada vez mais gente, as tensões raciais estavam ao rubro, os ghettos não paravam de crescer. A cada música que o disco nos leva, leva-nos também, de forma mais ou menos explicita, a cada uma destas realidades.


Por vezes, a única forma de despertar, de deixar o estado letárgico a que certas convicções nos levam, é o corte abrupto. Até isso está presente quando uma das músicas termina com a agulha que salta ou a fita que se enrola até que a música para de vez, e logo após os últimos versos que nos diziam que o Verão tinha chegado, e que havia flores por todo o lado pela manhã… Ou então não.

 

 

Forever Changes não foi um sucesso de vendas imediato, e é fácil perceber porquê: a desilusão (no sentido da ilusão que se destrói, que termina) nem sempre é fácil de aceitar. A ilusão tem os seus encantos e os encantados tendem a não querer ser “desiludidos”. No entanto, é hoje entendido pela crítica como um dos melhores discos da sua época assim como os Love são considerados uma das mais importantes bandas da altura.


Este disco de vinil é a edição comemorativa dos 45 anos de Forever Changes, editada pela Rhino Records, e veio da FNAC.

"The Pink Panther" Henry Mancini, 1964

The Pink Panther, ou A Pantera Cor-de-Rosa como se tornou conhecida em Portugal, está no meu imaginário desde muito, muito novo

.
Ainda que o filme original seja de 1963, dez anos antes do meu nascimento, só muito mais tarde o viria a conhecer, bem depois de conhecer a Pantera Cor-de-Rosa nos desenhos animados apresentados na RTP pelo saudoso Vasco Granja. Aliás, lembro-me bem de “suportar” intermináveis animações em stop motion, com latas de sardinhas, clips de papel e afia lápis, que teimavam em manter estranhas relações, só na esperança de que fosse a Pantera Cor-de-Rosa (ou o Bugs Bunny) a terminar o “Animação” (nome do programa aque o Vasco Granja apresentava na RTP2).


A “minha” Pantera Cor-de-Rosa tinha sido criada precisamente para a abertura e fecho do filme The Pink Panther, nome de um diamante cor-de-rosa em torno do qual o filme se desenrola.

The Pink Panther Theme

Indissociável da figura da Pantera Cor-de-Rosa vem, desde os meus tempos de miúdo, o tema músical de abertura do filme e da série de desenhos animados que se lhe seguiu, The Pink Panther Theme. Para-para, para, para-para-para-para-paraaaaaaa… Inesquecível.

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Composto por Henry Mancini (como aliás, todo o álbum) e interpretado pela sua orquestra, The Pink Panther Theme é uma música envolvente, de um swing constante, jazzy quanto baste e com toques de força ao puxar pelo saxofone sempre que é necessário marcar a posição. Os gatos marcam território e o que é uma pantera para além de um gatinho grande?


O sucesso de The Pink Panther Theme foi tal que o single do tema ganhou três Grammy Awards.

 

 

O disco vive o espirito das Big Bands da altura e ainda que as restantes músicas possam não partilhar da gradiosidade do tema principal, todo o álbum é digno de registo, abraçando uma variedade de estilos musicais que vão do Tango presente em It Had Better Be Tonight, ao Rock n’ Roll de The Tiber Twist, passando pela Polca e pelo Cha-Cha-Cha em Shades of Sennet e Something for Sellers.


Por falar em Sellers, um detalhe magnífico na contracapa do disco é a nota deixada por Peter Sellers, o actor que interpretou o inenarrável Inspector Jacques Clouseau. Depois de uma disparatada apresentação de cada uma das músicas, Sellers termina com a observação:


Eu nunca antes escrevi notas para um disco e estou certo de que nunca mais me vão pedir para o fazer. Pobres tontos, eles não sabem o que estão a perder.

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Este disco de vinil é uma edição original, Canadiana, de 1964, e veio da Discolecçao 2.

"Get On Up And Get Away" The Esquires, 1967

Get On Up And Get Away é um título muito bem escolhido, principalmente se considerarmos a particularidade de ser um título composto pelo nome de duas das músicas deste fantástico disco dos The Esquires: And Get Away, a primeira faixa do lado A, e Get On Up, a primeira faixa do lado B.


Os The Esquires foram um grupo norte-americano de Rhythm and Blues (R&B) formado em 1957 e que ganham fama com o seu primeiro single, Get On Up, lançado dez anos mais tarde, em 1967, tornando os The Esquires um dos mais requisitados grupos de R&B da altura.

 

 

É na onda desse sucesso que os The Esquires lançam nesse mesmo ano um novo single, And Get Away, estabelecendo uma lógica ligação ao anterior. Com estes dois lançamentos, o grupo originário de Milwaukee, no Wisconsin, é agora um sucesso nacional e isso abre a porta ao lançamento do seu primeiro LP (Long Play, longa duração, álbum a 33 rotações), Get On Up And Get Away.


O som dos The Esquires é aquele tipo de soul que nos leva a dizer, como diz o Edgar da Groovie Records, “o soul salva”. Garantindo a melodia apaixonante a que nos remete o soul, está igualmente presente um ritmo que pisca o olho à pista de dança fazendo com que todo o disco Get On Up And Get Away se ouça hoje com uma frescura de um sucesso pop de qualidade.

 

Get On Up And Get Away The Esquires GiraDiscos.jpg

Lado ALado B
1 - And Get Away1- Get On Up
2 - Listen to Me2 - My Sweet Baby
3 - How Was I To Know3 - No Doubt About It
4 - Groovin4 - Woman
5 - Everybody's Laughing5 - When I'm Ready
6 - How Could It Be6 - Things Won't Be The Same


Curiosamente, ao observar a capa de Get On Up And Get Away, podemos facilmente pensar estar perante mais um disco de funk psicadélico, late 60’s. Olhando a contracapa, de imediato somos esclarecidos:


Many thought the only way to get a hit record was to produce psychedelic records. Well, I have news for you. The Esquires get it over… Here’s na ellpee which pleases the taste of any generation. It’s groovy, danceable, listenable and soulful.


Palavras de E. Rodney Jones, então presidente da Associação Nacional de Anunciantes de Radio e Televisão dos Estados Unidos da América, impressas na contracapa.

 

Este disco de vinil é uma edição original norte-americana, de 1967 e veio da Groovie Records.

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